segunda-feira, 12 de junho de 2017

Deixem Santo Antônio em paz


Há uma história de uma moça que todo ano religiosamente fazia promessas e culto a Santo Antônio. Eram rosários, trezena, velas, ano após ano na esperança de que um dia o santo lhe trouxesse um namorado e que isso chegasse ao altar. Contudo, o namorado não vinha e em um ano, tomada pela frustração e raiva, a moça pegou a imagem que tinha de Santo Antônio e jogou pela janela. Um rapaz que passava embaixo no momento que a imagem caiu foi acertado em cheio na cabeça. A moça vendo aquilo foi ajudar o rapaz e nisso se conheceram e se casaram.

Há quem diga que foi Santo Antônio quem ajudou mas talvez o que tenha acontecido foi que a moça tenha aprendido uma lição primordial quando se trata de casamento: a não cobrança. Pelo menos no sentido de sempre querer algo do seu próprio jeito, sem se importar como será feito ou como conseguir. Talvez ao perceber que não se podia cobrar incessantemente de um santo, um ser supremo que pelo imaginário pode resolver todos os seus problemas, a moça da história estivesse pronta pra perceber que também não se pode cobrar milagres de uma pessoa comum.

Todo ano perto do Dia dos Namorados, a prerrogativa é a mesma: Santo Antônio buscado incessantemente por moças querendo um marido. E se ocorre um casamento em meados de junho, na hora da noiva jogar o buquê e o Santo Antônio (isso é inédito pra mim) não raro de ver moças disputando de tal forma que as filmagens vão parar nas vídeo cassetadas. Vestidos se rasgam, pulseiras arrebentam, cabelos são desfeitos... daí os objetos são colocados em um altar e a cada olhada direcionada a eles existe uma cobrança velada, como se pelo trabalho de tê-los conseguido eles lhe devesse o tão acariciado sonho.

Devo ressaltar que não vejo rapazes brigando por buquês, salvo casos quando se ganha uma garrafa de whisky. Eu tenho uma teoria particular para isso, não é o caso dos rapazes não quererem casar, é o caso que eles quando o querem, o fazem com uma moça que mostre o real e concreto significado de casamento: companheirismo, cuidado, parceria e amor. E para coisas assim é necessário mais do que brigar por um buquê, de alguém que já encontrou sua pessoa e que estará murcho em poucas semanas.
Mesmo que pareça, não é crueldade. De onde muitas dessas moças vieram eu já tenho doutorado. Sei como é viver ano após ano recorrendo a simpatias, crenças, barganhando com Santo Antônio, desejando um sonho devaneiado que nunca chegaria a ser realidade. E o pior, me esquecendo do mais importante: evoluir enquanto pessoa, amadurecendo e percebendo se quem estava do meu lado também apresentava amadurecimento para um passo desses. E quando percebi que não, o sonho se quebrou em mil pedaços e veio não propriamente a revolta e descrença com Santo Antônio, mas a desolação de que nada adiantavam as barganhas se não modificasse a mim mesma.

E lamentavelmente, é notório que muitas estão nessa vibe. Pegam a imagem, botam de cabeça pra baixo, botam no congelador, botam no congelador de cabeça pra baixo, tiram o Menino Jesus... Para quem não sabe, Santo Antônio também é o santo que cuida das finanças, logo ele devia ser tratado com mais respeito. O problema maior é que muitos fazem isso, porém permanecem presos a valores de egoísmo, crendo que um relacionamento é uma via de mão única. Pode não parecer, mas amor não é de graça e casamento ou namoro são coisas que não se sonham sozinhas.

Amor é uma coisa que exige muito de todos nós. Não exigências fúteis, mas a exigência de sempre olhar para si mesmo e se perguntar se está se evoluindo a cada dia, se está se dando e com isso multiplicando o que se tem. Amor é uma planta que é muito bonita, mas não pode simplesmente ser deixada ao relento, é preciso cuidados para que ela cresça e fique melhor. Casamento ou namoro também é assim e por isso que para muitos é difícil entender e aceitar que não há barganha nem bagatelas, Santo Antônio ajuda, mas ainda depende muito do que seu coração tem de melhor e o que você tem a oferecer.


P.S: Feliz dia dos namorados!

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